sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ausência


O que representa a não eleição de Lipa Xavier


Camarada Georgino Neto


O socialismo não depende de você, nem de mim, nem de ninguém. O socialismo é a marcha inexorável da humanidade que marcha pra frente. (Jorge Amado)

Não sou analista político. Nem me arvoro a sê-lo; pelo contrário, sempre fui um péssimo entendedor dessa invenção helênica, cunhada para dar organização e representatividade social. É que não resisti. Como montes-clarense de coração (e corpo e alma), me sinto no dever de emitir a minha opinião sobre o processo eleitoral local que acaba de findar. Max Weber, pensador e sociólogo alemão, sabiamente dizia que “há duas maneiras de se fazer política. Ou se vive para a política ou se vive da política”. Bela frase, que tomo com o intuito de ilustrar o meu raciocínio.

Se, na terra da Figueira, existe alguém no qual o pensamento weberiano se torna emblemático, este alguém é Lipa Xavier. Nos seus quatro mandatos de vereador, Lipa cumpriu com maestria soberba a missão de representar os interesses maiores da população de Montes Claros, sem ter um “curral eleitoral”, ou um “lócus” que lhe garantisse a eleição. Partidário do comunismo, foi fiel e combativo aos ideais legados por toda uma geração e uma história de homens e mulheres que, com sangue e verbo, construíram a base da ideologia que prega a igualdade e a justiça social, o bem comum acima dos interesses particulares.

Dirão: o comunismo foi um erro histórico, uma tentativa mal-sucedida de imposição ideológica.

Pois eu digo: o erro histórico maior ainda estar por vir, se não formos capazes de resgatar a crença do comunismo. O genial Millôr Fernandes diz que a história é um tal tecido de mentiras que os colonialistas sempre conseguiram dar a impressão de que todos os países foram descobertos por estrangeiros. Pois não é o que fizeram com o comunismo? Teceram a trama da história oficial arraigada na falsa crença do capitalismo como mola propulsora do desenvolvimento social, em detrimento do risco do comunismo impedir o alcance dos sonhos e dos desejos dos indivíduos.

Pois bem: cá estamos nós, assistindo de camarote a derrocada social chamada capitalismo, à custa de um sofrimento coletivo jamais imaginado, em prol do gozo dos benefícios de uma minoria burguesa que se alimenta da miséria humana. Parece radicalismo? Que seja. Mas creio que devamos, como sugeria Walter Benjamin, escovar a história a contra pêlo.

É pertinente falar em História ao dizer o que representa a não eleição de Lipa neste momento. A princípio, parece apenas se tratar de um candidato que não se elegeu. Mas é muito mais. A não eleição de Lipa Xavier expressa um retrocesso da mentalidade política do povo de Montes Claros. A lacuna aberta pela ausência de Lipa na câmara de vereadores é enorme. Primeiro, porque a cidade perde o espírito combativo e sagaz do moço batizado Eurípedes. E também, porque adormece com a sua falta o ideal comunista na política montes-clarense, que perde o seu único representante. Sem me atrever a explicações racionais que ocasionaram a derrota de Lipa, parece-me que ele se tornou vítima de uma perseguição, tão cruel quanto injusta.

A quem interessa a não eleição de Lipa, camaradas? A quem interessa o desaparecimento da verve afiada e insubmissa de Lipa? O que querem os que tentaram emudecê-lo? As pessoas acreditam que foi Lipa o perdedor. Mas quem de fato perdeu com a não eleição de Lipa foi o povo desta cidade. Infelizmente, temos muito caminho ainda a percorrer no exercício democrático do voto. Neste momento, lembro-me do Bernard Shaw, ao dizer que nos regimes autoritários é uma minoria corrupta que escolhe os governantes; na democracia é a maioria incompetente.

Todos sabem da minha afetiva ligação com o Lipa Xavier. Mais que amigo, um irmão que aprendi a amar e respeitar, como sujeito e como político (como se se pudesse separar essas duas instâncias). Mas acreditem; o meu discurso é baseado na imparcialidade, e justamente pela minha proximidade com o Lipa é que tenho condição de me expressar verdadeiramente.

Há ainda os que julgam necessária uma reforma da representatividade, uma renovação no Legislativo. E, em certa medida, isto de fato é algo desejável e salutar em uma democracia. O que nós não podemos é promover uma mudança cega, estabelecendo concomitantemente o alijamento de pessoas necessárias à construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

No fundo, escrevo este texto como uma forma de vazão da minha culpa. Culpa injustificável por não ter votado em Lipa. È que hoje resido em Belo Horizonte, e quando me preparava para viajar a Montes Claros para exercer o meu legítimo direito de escolha, o nascimento do meu filho João Francisco alterou a minha rota. Eu sei que um voto não faria diferença. Ainda assim Lipa não seria eleito. Bem sei disso. Com a minha colaboração, Lipa teria atingido 978 votos. Continuaria em 52° lugar. Mas a minha mágoa, a maior delas, foi não ter tido a honra e o privilégio das outras 977 pessoas, de bater no peito e dizer, com orgulho: “Votei em Lipa”.

Resta-nos agora acreditar que estaremos bem representados, e que, a despeito de tudo, ainda um dia seremos um povo digno, com justiça e igualdade sendo servido no café das nossas manhãs (ao estilo Thiago de Mello).

E para aqueles que tramaram contra a permanência de Lipa na câmara, movendo esforços descomunais para tal fim, o amanhã virá, restabelecendo a verdade e mostrando a face dos que covardemente se utilizaram do poder com um único objetivo: continuar no poder. A grande lição já foi dada. Quem trai a esperança de uma cidade não merece governá-la. Que outros Lipas se multipliquem, trazendo a coragem e a verdade nas mãos e no coração.

Até a vista, camarada Lipa. Perdoe-me pela ausência; perdoe-nos pela ausência.


Artigo publicado no Jornal O Norte.



A Estrada vai além do que se vê!

Um comentário:

Luciana disse...

Desculpa o que vou falar: mas o povo brasileirpo é burro e tem memória curta.
A não eleição de Lipa Xavier foi um erro, um inequivoco e dos piores. Lipa sempre deu o sangue por MOC, sempre lutou pela cidade e principalmente pela juventude. OK que ele tenha errado no passado, mas quem é que nunca errou? Veja o exemplo de Sao Luis- MA: Castelo, um matador na época da ditadura foi eleito prefeito. Alguém entende?
É por isso que o Brasil tá desse jeito..........
Enquanto não mudarmos as nossas cabeças, nada será mudado.