segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O show tem que continuar

2011.

Um ano pra ser lembrado. Alegrias imensas e grandes tristezas.

Mas, como sempre, valeu a pena. Antecipo a retrô fotográfica pois só retornarei no ano que vem.




Feliz 2012 aos leitores e leitoras deste blog.

Obrigado a minha família, amigos, colegas e camaradas.

Inté!



A Estrada vai além do que se vê!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A construção do Homem no jovem Marx (parte final)



Por Augusto Buonicore

Não seria possível fazermos qualquer análise séria do desenvolvimento da concepção de mundo de Marx e de sua construção teórica sem analisarmos o contexto em que viveu (como o surgimento de um movimento operário autônomo), sua vida, as maneiras e os caminhos pelos quais o homem Marx se articulou com a realidade de seu tempo. É impossível conhecermos plenamente o "marxismo maduro" sem que ao mesmo tempo conheçamos seu processo contraditório de desenvolvimento, que inclui necessariamente as obras da juventude.

Conclusões

Concluído o trabalho, fica a impressão de termos tratado de décadas de elaboração teórica de Marx. Mas, na verdade, o que fizemos foi analisar um breve, eu diria mesmo um brevíssimo período de sua vida intelectual. Grosso modo, tratamos apenas de três anos dela, um período que vai de 1841, quando da elaboração de sua tese de doutoramento, até 1844, quando redigiu os seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos. Uma pergunta então nos assola: como foi possível num espaço tão curto de tempo um pensamento transformar-se tanto? Como o Marx idealista, hegeliano, sonhando com a cátedra universitária se transformaria no Marx materialista militante, no revolucionário comunista? O que o levaria a abandonar a companhia alegre dos jovens hegelianos e o seleto Clube de Doutores pela convivência com a rude classe operária europeia e suas organizações? Trocar uma vida estável e confortável por uma vida de sofrimento e de lutas?

Seria bastante difícil, ou mesmo impossível, fazermos qualquer análise séria do desenvolvimento da concepção de mundo de Marx e de sua construção teórica se não buscássemos entender o período histórico conturbado que viveu – as ideias que se agitavam e o surgimento de um movimento operário autônomo – e se não conhecêssemos sua própria vida, as maneiras e os caminhos pelos quais o homem Marx se articulou com a realidade de seu tempo.

Se procurarmos, como fazem alguns, isolar as ideias de Marx da vida real, da historia real, ficaríamos, decerto, atormentados, perdidos, e não conseguiríamos traçar um perfil, nem mesmo provisório, do desenvolvimento intelectual e político do jovem Marx. Um desenvolvimento que teve sua lógica interna e que podemos, grosso modo, dividir em três fases distintas.

O primeiro período começa na adolescência em Triers e tem seu ponto alto na elaboração de sua tese de doutoramento. Nessa fase seu círculo de amizades estava restrito aos meios acadêmicos e sua posição em relação à autocracia prussiana era a de um crítico, um crítico teórico – e mesmo essa crítica teórica concentrava-se, em grande parte, na crítica à religião. Uma fase na qual seus grandes influenciadores foram Bauer e Strauss.

O segundo período nasceu do recrudescimento do regime prussiano, que lhe cassou a possibilidade de seguir a carreira universitária. Tal fato acabou por convencê-lo dos limites da crítica acadêmica e da filosofia especulativa e o fez voltar suas atenções para a imprensa. Marx tornou-se um publicista livre, um propagandista de ideias democráticas e radicais, fazendo da Gazeta Renana um dos principais instrumentos da oposição ao regime. Foi através de sua atividade nesse jornal, primeiro como colaborador e depois como redator-chefe, que entrou em contato com os setores explorados da população, no caso os camponeses pobres. A descoberta do povo real – não-imaginário – transformou sua concepção de mundo e, portanto, sua visão sobre o próprio Homem. O social passou a constituir o centro de suas preocupações. Consolidou-se em Marx o democratismo-revolucionário, e esboçou-se também o embrião de uma concepção materialista de mundo. Nesta fase aproximou-se da ala esquerda dos jovens hegelianos, onde se destacavam figuras como Ruge e Hess.

O terceiro período foi marcado, entre outras coisas, pela descoberta da obra de Feuerbach. Esse encontro lhe propiciou uma nova leitura de Hegel e a negação do idealismo. Tornou-o materialista e fez dele um humanista radical. A aplicação do método Feuerbachiano de inversão sujeito/predicado na análise dos problemas políticos, em especial do Estado, ajudou-o a submeter a teoria do Estado de Hegel a uma violenta crítica. Hegel considerava o Estado a realização da razão absoluta, sendo que o Homem só poderia realizar-se como Homem dentro dele. Marx, ao contrário, afirmou que o Estado era predicado humano, sua própria criação – uma criação que acabou se voltando contra o próprio Homem ao se colocar como ente superior. Por isso a recuperação da essência humana alienada não passava mais apenas pela negação da religião, mas também pela negação do Estado. Negá-los significava destruí-los enquanto instrumentos de opressão e dominação.

O quarto período teve como ponto de partida sua mudança para Paris, a capital da revolução mundial. Ali, juntamente com Arnold Ruge, publicou os Anais Franco-alemães. É nesse período que ocorre sua mais profunda transformação. Foi em Paris que entrou em contato, pela primeira vez, com o proletariado revolucionário e suas organizações. Isso lhe permitiu mudar drasticamente sua perspectiva de mundo. Marx descobriria então que a base de toda a alienação residia nas relações que se desenvolviam na base da economia capitalista – relações estas de exploração. Portanto a emancipação humana deveria necessariamente passar pela emancipação do trabalho alienado – pelo fim da exploração do Homem pelo Homem. E isso somente seria possível com o fim da propriedade privada dos meios de produção. Só o comunismo poderia garantir ao Homem sua emancipação completa. O humanismo deixava assim de ser o humanismo abstrato dos liberais democráticos burgueses para ser um humanismo de classe, proletário.

Pelo que já vimos, podemos afirmar que para Marx a emancipação dos trabalhadores deveria passar, necessariamente, pela transformação radical da realidade que engendrava a sua alienação. A "arma da crítica" deveria, portanto, transformar-se na "crítica das armas".

Durante esses primeiros anos de elaboração teórico-política, o desenvolvimento do conceito de Homem relaciona-se com o de alienação. Os dois termos andam juntos nas obras do jovem Marx e um não pode ser plenamente compreendido sem o outro. Distinguimos, por ordem de aparecimento em suas obras, a alienação religiosa, a alienação política e, por fim, a alienação econômico-social.

Mas será que ao passar da compreensão de uma forma de alienação para outra Marx não estaria automaticamente negando a anterior? Eu diria que não. O que ocorre é na verdade mais um deslocamento de posição de uma relação à outra. As diversas formas de alienação continuam a conviver lado a lado numa sociedade ainda alienada. O que Marx fez foi colocá-las numa hierarquia, estabelecendo o primado da alienação econômica, através do trabalho alienado, sobre as demais. A supressão da alienação produzida pelo trabalho assalariado é condição para a eliminação de todas as outras formas de alienação. E o trabalho alienado somente chegará ao fim com a expropriação dos expropriadores – com a socialização plena dos meios de produção.

Outra conclusão a que podemos chegar é que é impossível conhecermos plenamente o "marxismo maduro" sem que ao mesmo tempo conheçamos seu processo contraditório de desenvolvimento, que inclui necessariamente as obras da juventude. Por isso podemos afirmar que aqueles que buscam construir entre a juventude e a maturidade de Marx uma muralha intransponível prestam na verdade um desserviço ao estudo do marxismo. Não queremos dizer que não existem diferenças significativas entre esses dois períodos da vida e da produção teórica de Marx, mas também não devemos absolutizar essas diferenças. A formação teórica é um processo e nunca poderíamos esperar que o velho Marx nascesse pronto, tal qual Minerva da cabeça de Zeus, já de armadura e lança em punho. A formação teórica é um processo que às vezes dá saltos e a obra de Marx foi marcada por esses saltos, que seriam ininteligíveis se desassociados do estudo de sua vida militante.


Bibliografia


1. Obras sobre o jovem Marx:

Althusser, Louis. A favor de Marx. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Althusser, Louis. Posições-1. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

Attali, Jacques. Karl Marx ou o espírito do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2007.

Dal Pra, Mario. La dialética em Marx, de los escritos de juventud a la ‘introduccion la critica de la economia política'. Barcelona: Mrtinez Roca, 1971.

Fedosseiev, P.N. et alli. Karl Marx (biografia). Lisboa: Avante! 1983.

Frederico, Celso. O jovem Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

Fromm, Erich. Conceito marxista do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

Garaudy, Roger. Karl Marx. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

Konder, Leandro. Marxismo e alienação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

Lápine, Nicolai. O jovem Marx. Lisboa: Caminho, 1983.

Lowy, Michael. Método dialético e Teoria Política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

____________. A teoria da revolução no jovem Marx. Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

Lênin, V.I. O que é marxismo? Porto Alegre: Movimento, 1980.

Mac Lellan, David. Marx y los jóvenes hegelianos. Barcelona: Martinez Roca, 1971.

_______________. Karl Marx: vida e obra. Petrópolis-RJ: Vozes, 1990.

Magalhães-Vilhena, Vasco de (org). Raízes teóricas da formação doutrinal de Marx e Engels (1842-1846). Lisboa: Livros Horizonte, 1981.

Markus, Gyorgy. Teoria do conhecimento no jovem Marx, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

Mehring, Franz. Karl Marx: vida e obra. Vol 1. Lisboa: Editoral Presença/Martins Fontes, 1974.

Naves, Márcio Bilharino. Marx: ciência e revolução. São Paulo: Moderna: Unicamp, 2000.

Rossi, Mário. La gênesis del materialismo histórico. Vol, 2, el joven Marx, Madrid.

Santos, Laymert G. dos. Alienação e capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

Wheen, Francis. Karl Marx. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.


2. Obras da juventude de Marx:

Marx, K. Diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro. São Paulo: Global.

Marx, K. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Lisboa: Presença, 1983.

Marx, K, e Ruge, A. Los anales franco-alemanes. Barcelona: Martinez Roca, 1973.

Marx, K. A Questão Judaica. Ed. Moraes, s/d

Marx, K, e Engels, F. Sobre a religião. Lisboa: Edições 70, 1976.

Marx, K. Textos filosóficos. Lisboa: Estampa, 1975.

Marx, K. A liberdade de imprensa. Porto Alegre: L&PM, 1980.

Marx, K e Engels, F. A Ideologia Alemã (Feuerbach). São Paulo: Hucitec, 1984.

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Nestes últimos anos a editora Boitempo lançou no país, com novas traduções a partir do alemão, uma série de obras da juventude de Marx. Entre elas se encontram: Sobre o suicídio, Sobre a questão judaica, Crítica da filosofia do direito de Hegel, Manuscritos econômico-filosóficos. Também lançou algumas obras do chamado período de transição de Marx e Engels como A sagrada família, A ideologia alemã entre outras.

NOTA: Este ensaio foi escrito no final da década de 1980, portanto há mais de 20 anos. Muitas das opiniões aqui expressas não correspondem mais integralmente às posições atuais do autor. Mas, por oferecer uma visão panorâmica da formação intelectual de Marx, considero-o ainda bastante útil especialmente para as jovens gerações de combatentes sociais que conhecem pouco a vida e a obra de um dos fundadores do socialismo científico.

*Augusto Buonicore, historiador e mestre em Ciência Política pela Unicamp, é secretário-geral da Fundação Maurício Grabois e membro dos conselhos editoriais das revistas Princípios e Crítica Marxista. Este ensaio – cuja versão atual foi publicada originalmente em cinco partes na revista Juventude.br (números 1 a 5) – foi escrito há mais uma década e muitas das opiniões nele contidas não correspondem mais integralmente às posições do autor. A motivação principal de sua publicação é oferecer uma visão panorâmica da formação intelectual inicial de Marx, algo de grande utilidade especialmente para as jovens gerações de comunistas, que conhecem pouco a vida e a obra do fundador do socialismo científico. Ensaio publicado na página da Fundação Maurício Grabois.


A Estrada vai além do que se vê!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

A construção do Homem no jovem Marx (parte 7)


Por Augusto Buonicore

Marx e os Manuscritos Econômicos e Filosóficos

Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, escrito em 1844, o humanismo de Marx adquire maior consistência. Não se trata mais aqui da defesa de um homem em geral, abstrato, mas de um homem concreto, histórico. Era um humanismo sob novo ponto de vista, o ponto de vista do proletariado revolucionário.

Nesse trabalho o autor critica os economistas burgueses, que consideravam os homens apenas enquanto produziam para o Capital. Reduziam o proletariado àquele que "sem capital nem renda da terra vivia puramente do trabalho e do trabalho unilateral, abstrato, apenas como operário". Assim puderam estabelecer "o princípio pelo qual, como qualquer cavalo, ele tem que ganhar o suficiente para poder trabalhar. Não considerava-o no tempo em que não trabalhava, ou seja, como homem. Assim, "os mendigos, os desempregados, os trabalhadores famintos, indigentes, criminosos, eram figuras que não existiam para a economia política, mas apenas para os olhos dos médicos, juízes, coveiros e burocratas”. As necessidades dos trabalhadores "se reduziriam às necessidades de mantê-los diariamente no trabalho, de molde a não extinguir a raça dos trabalhadores". Os salários teriam "o mesmo significado da manutenção de qualquer outro instrumento de produção (...) É o óleo aplicado à mola para conservá-la rodando". O homem se transformava numa peça de engrenagem e a sociedade numa grande fábrica.

Marx submeteu assim o capitalismo a uma crítica feroz, de um ponto de vista revolucionário. Foi uma das críticas mais radicais escritas até então. Denunciou a desumanização do homem e sua transformação em simples mercadoria. Denunciou o processo de alienação – não apenas religiosa e política, mas fundamentalmente a alienação que teria por centro o próprio trabalho humano. Definiu o trabalho alienado como fundamento do homem alienado.

No capitalismo, afirmava Marx, "a produção não apenas produz o homem como mercadoria humana (...) produz o homem como um ser mental e fisicamente desumanizado. Imoralidade, aborto, escravidão do trabalho". E prosseguia: "A partir do momento em que a humanidade se compõe principalmente de trabalhadores, dos quais deserdados são os proletários, o humanismo real que se preocupa com os interesses de cada homem é aquele que defende os interesses proletários."

Na sociedade capitalista os operários eram as maiores vítimas da guerra sem quartel da concorrência pelos mercados. O operário, segundo Marx, não ganhava necessariamente quando o capitalista ganhava, mas perdia necessariamente quando ele perdia. "Se a riqueza da sociedade declina”, afirmou, “é o operário quem mais sofre; mas se a riqueza progride, essa é a situação mais favorável para os operários, mas significa para eles também um trabalho extenuante, que abreviará sua existência".

A economia política burguesa era, por sua vez, extremamente moralista – pelo menos quanto à classe operária. Segundo o jovem Marx, "sua tese principal era a renúncia à vida e às necessidades humanas. Quanto menos se comer, beber, comprar livros, ir ao teatro ou bares, ou botequim, e quanto menos se pensar, amar, doutrinar, cantar, pintar, esgrimir etc. tanto mais se poderia economizar (...) Tudo o que o economista tirava sob a forma de vida e humanidade devolvia sob forma de dinheiro. (...) O trabalho deve ser apenas o que lhe é necessário para desejar viver, e deve desejar viver para ter isso".

Em contraposição à moralidade burguesa começava a surgir uma nova moralidade: "Quando artesãos comunistas formam associações, o ensino e a propaganda são seus primeiros objetivos. Mas sua própria associação engendra uma necessidade nova – a necessidade da sociedade –, o que é um meio torna-se um fim (...) Fumar, comer e beber não são mais meios de congregar pessoas. A sociedade, a associação, o divertimento tendo também como fito a sociedade é suficiente para eles, a fraternidade do homem não é a frase vazia, mas uma realidade e a pobreza do homem resplandece sobre nós vindo de seus corpos fatigados."

A desalienação humana passa pela superação da exploração assalariada

Já no seu 1º manuscrito Marx passa a estender o conceito de alienação do campo da política para o campo da economia, estudando particularmente a alienação do trabalho. No capitalismo o trabalho é exterior ao operário, não pertence à sua essência. No seu trabalho o operário não se afirma, mas, ao contrário, se nega. Não se sente bem, mas infeliz. Não desenvolve nenhuma energia física e espiritual, mas mortifica o corpo e arruina o espírito. O operário, portanto, só se sente bem consigo mesmo fora do trabalho, pois no trabalho sente-se fora de si.

No capitalismo o trabalho é forçado, imposto de fora. Não representa a satisfação de uma necessidade do trabalhador, mas apenas um meio de receber um salário, um simples meio de atender outra necessidade. Todo trabalho do operário volta-se contra ele, como uma força estranha e hostil. O operário, ao produzir mercadorias, produzia também sua própria alienação.

Escreveu Marx: "O trabalhador fica mais pobre à medida em que produz mais riquezas e sua produção cresce em força e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens (...) quanto mais trabalhadores se desgastem no trabalho tanto mais poderoso se torna o mundo dos objetos por ele criado em face dele mesmo, tanto mais simples se torna a vida interior, e tanto menos ele se pertence a si próprio (...) O trabalhador pôs a sua vida no objeto, e sua vida, então, não mais lhe pertence, porém ao objeto.” Concluía ele que, se o produto do trabalho não pertencia ao operário, isso só era possível porque pertencia a outrem, o capitalista.

Marx descobriu assim um dos fundamentos da alienação humana no capitalismo: a apropriação do produto do trabalho pelo não-operário (proprietário dos meios de produção), fato que acarreta uma dominação real daquele que produz por aquele que não produz. A alienação do produto do trabalho exprimia-se na hostilidade entre o operário e o não-operário.

Essa concepção está na raiz da crítica de Marx a certas correntes socialistas, que buscavam eliminar a condição de proletário através de um aumento de salários, escondendo-se sob a palavra de ordem dos "salários justos". Escreveu Marx: "Uma elevação do salário pela força (...) nada mais seria que um melhor assalariado dos escravos e não uma conquista para o operário, nem para o trabalho, o seu destino humano." O salário seria conseqüência do trabalho alienado e "aquele que se erguia contra a propriedade privada devia reclamar a anulação do trabalho alienado, e, portanto, do salariato, como a situação na qual o trabalho não era um fim em si, mas um servidor do salário".

O Homem e a sociedade

Marx já nesse período tinha clareza da unidade dialética que se forjava entre o homem e a sociedade. Nele já não vemos nada que se assemelhe ao determinismo econômico, que alguns teimam em lhe impingir. A sociedade e as condições históricas produziam os homens concretos, mas ao mesmo tempo estes não eram meros produtos sem vontade, e sim agentes ativos que com sua ação consciente eram capazes de mudar as condições que lhes deram origem. Afirmava ele: "Da mesma forma que a sociedade produz o homem, também ela era produzida por ele." E seguia em seu raciocínio afirmando que "embora o homem seja um indivíduo único (...) ele é igualmente o todo, o todo ideal, a existência subjetiva da sociedade como é pensada e vivenciada. Ele existe (...) como a soma das manifestações humanas da vida".

O homem, portanto, não pode ser entendido como o Robson Crusoé do pensamento liberal. Ele só pode ser concebido como parte integrante do mundo dos homens, a sociedade. Cada indivíduo era portador do conjunto dessas relações (homem/homem, homem/natureza). O homem (individual/real) só pode ser entendido na coletividade dos homens. Podemos notar ainda neste trabalho uma grande influência das ideias de Feuerbach e de seu humanismo, de sua “essência humana” em geral. Mas, no Marx dos Manuscritos, essas ideias já se encontravam em transição e tenderiam a desaparecer na obras seguintes, em especial na Ideologia Alemã de 1845.

Todo o mundo para o homem, inclusive os seus sentidos, eram fruto da ação dos próprios homens – através do trabalho humano – e "mesmo as formas de relação do homem com o mundo, o ver, ouvir, cheirar, saborear (...) amar, ou seja, tudo o que é possível captar e transmitir através dos órgãos de nossa individualidade são produtos de anos de trabalho social humano".

"È evidente”, continuava ele, “que o olho humano aprecia as coisas de maneira diferente da do olho bruto, não humano, assim como o ouvido humano difere do ouvido bruto, e só quando o objeto se torna um objeto humano (...) o homem não fica perdido nele. Isso somente é possível quando o objeto se torna um objeto social e quando ele próprio se torna um ser social". Mas todas essas formas de apreensão humana do mundo, através dos sentidos, encontram-se em nossa sociedade limitadas em sua potencialidade pela existência da propriedade da privada e pela exploração do trabalho.

A propriedade privada, segundo Marx, "tornou-nos néscios e parciais a ponto de um objeto só ser considerado nosso quando é diretamente comido, bebido, vestido, habitado etc, em resumo quando utilizado de alguma forma (...) Todos os sentidos físicos e intelectuais foram substituídos pela simples alienação de todos eles, pelo sentido do ter".

A sociedade capitalista tem no dinheiro uma forma particular de alienação da essência humana em geral, a qual inverte o sentido da realidade. A propriedade do dinheiro passa a ser também de quem o possui: "Sou feio, mas posso comprar a mais bela mulher e conseqüentemente não sou feio (...) Sou estúpido, mas o dinheiro é o verdadeiro cérebro de todas as coisas e, sendo assim, como poderá este seu possuidor ser estúpido?" O dinheiro, para Marx, "converte o amor em ódio (...), o servo em senhor (...), a estupidez em inteligência (...) Quem pode comprar a bravura é bravo, malgrado seja covarde".

Contrapondo-se ao mundo do dinheiro, Marx pregava uma nova sociedade em que "o homem fosse Homem e em que a relação com o mundo fosse humana, aonde o amor só pudesse ser trocado por amor (...) Se desejar apreender a arte, será preciso apenas ser uma pessoa autenticamente educada". Mas para realizar tal mundo é preciso, antes de mais nada, abolir a propriedade privada. Esse seria o primeiro passo para a “apropriação da verdade humana (...) e a substituição positiva de toda a alienação, o retorno do homem da religião, do Estado, para a vida realmente social”.

O comunismo, assim, seria para Marx a abolição da propriedade privada e o fim da alienação humana. Ele seria a "verdadeira apropriação da natureza humana através do e para o Homem (...) O retorno do Homem a si mesmo como ser social (...) O comunismo como naturalismo plenamente desenvolvido é humanismo (...) É a resolução do antagonismo entre Homem e natureza, entre homem e seu semelhante. É a verdadeira solução do conflito entre a existência e a essência (...) entre o indivíduo e a espécie".


(Continua na parte 8)

Leia as outras partes deste ensaio:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6

*Augusto Buonicore, historiador e mestre em Ciência Política pela Unicamp, é secretário-geral da Fundação Maurício Grabois e membro dos conselhos editoriais das revistas Princípios e Crítica Marxista. Este ensaio – cuja versão atual foi publicada originalmente em cinco partes na revista Juventude.br (números 1 a 5) – foi escrito há mais uma década e muitas das opiniões nele contidas não correspondem mais integralmente às posições do autor. A motivação principal de sua publicação é oferecer uma visão panorâmica da formação intelectual inicial de Marx, algo de grande utilidade especialmente para as jovens gerações de comunistas, que conhecem pouco a vida e a obra do fundador do socialismo científico. Ensaio publicado na página da Fundação Maurício Grabois.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Ministro reafirma importância da agenda juvenil

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, participou, na última sexta-feira (18), do segundo dia de reunião do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve). Desde o início do governo da presidenta Dilma Rouseff, este foi o primeiro encontro formal do ministro com os conselheiros, que estão reunidos em Brasília para definir as prioridades do colegiado em 2011. Apesar de reconhecer a necessidade de ações imediatas para os jovens em situação de risco, o ministro lembrou que a política nacional de juventude deve contemplar o segmento como um todo, incluindo os jovens de classe média e alta, que devem ser mobilizados para participar da vida política do país. "Precisamos convidar os jovens, chamá-los para a defesa de causas importantes, como o combate à miséria. E não me refiro apenas à miséria formal, mas também à miséria provocada pela falta de valores. Eu me orgulho de fazer parte de um governo que coloca esta causa como uma de suas principais bandeiras".

O ministro lembrou, ainda, que a juventude está na pauta prioritária da presidenta Dilma Rousseff, por meio do Fórum Direitos e Cidadania, definido como um dos quatro eixos de atuação do governo nos próximos quatros anos. Ele também destacou que a presidenta tem plena consciência da importância da sociedade civil na construção das políticas públicas, afirmando que ela dará continuidade à relação que foi construída no governo do ex-presidente Lula. "A presidenta manterá uma relação intensa, organizada e permanente com a sociedade civil. Ela não tem interesse em uma relação ocasional, para atender a demandas pontuais que chegam ao governo. O nosso objetivo é manter o diálogo permanente, trazendo os movimentos para discutir uma pauta que, sabemos, é extensa, difícil, e reflete a grande dívida social que o país acumulou ao longo de sua história". Gilberto aproveitou para reiterar que a juventude não pode ficar fora desse processo, devendo ocupar lugar de destaque na construção do projeto de governo.

Em relação à agenda do Conjuve este ano, o ministro afirmou que a segunda Conferência Nacional de Juventude, prevista para o próximo semestre, deve ser vista como um instrumento mobilizador, não como um fim. Ele informou sua intenção de participar das próximas reuniões do Conselho e afirmou que a escolha de Severine Macedo para a Secretaria Nacional de Juventude foi também uma forma de homenagear a juventude representativa das mulheres e do meio rural. A nova secretária, que deve tomar nesta semana, foi conselheira do Conjuve pela Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetagri).

Agenda 2011 - O presidente do Conselho, Gabriel Medina, destacou que além da Conferência Nacional de Políticas Públicas para a Juventude, a agenda de 2011 inclui, entre outras prioridades, a discussão do Plano Nacional de Juventude, da Política de Combate às Drogas, do Combate à Violência que atinge a juventude, sobretudo os jovens negros, da Agenda de Trabalho Decente para a Juventude, além da discussão do Plano Plurianual, com o objetivo de inserir a agenda juvenil nas metas do governo federal.

Da página da Secretaria-Geral da Presidência da República

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Montes Claros chora a morte de Konstantin Christoff


Montes Claros perdeu um dos seus filhos adotivos mais ilustres. Konstantin Christoff, benemérito médico-cirurgião geral (que por muitos anos serviu a Santa Casa), cirurgião plástico e artista plástico cuja obra tem alcance universal, faleceu nesta segunda-feira, 21, aos 88 anos, depois de meses internado, vitimado por um acidente vascular cerebral.

O prefeito Luiz Tadeu Leite decretou luto oficial no município por três dias; lamentou tão grande perda em nome de todos os montes-clarenses, manifestando suas condolências pessoais e da administração à família enlutada, e colocando à disposição o Centro Cultural Hermes de Paula, onde ocorreu o velório.

Nascido na Bulgária em 1923, Konstantin veio ainda menino para Montes Claros, em companhia de um irmão, o engenheiro Raio, que faleceu num acidente aéreo, o pai e a mãe. Era o último remanescente de uma turma de jovens que brilhou na vida social, política e cultural da cidade, como Darcy Ribeiro, Mário Ribeiro, João Vale Maurício, entre outros.


A história de vida de Konstantin funde-se à medicina de Montes Claros. Formou, na década de 40, com Haroldo Tourinho, Jason Teixeira, Luiz Quintino e Crisantino Borém o quadro clínico da Santa Casa, onde trabalhou ao lado de Irmã Beata, tida como santa por muitos montes-clarenses. Há mais de 20 anos dedicado às artes plástica, foi reconhecido nacional e internacionalmente. Deixa a viúva Yede Ribeiro Christoff e os filhos Raio e Igor. Andrey, arquiteto, faleceu a cerca de sete meses.

Do Portal Catrumano

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sexta-feira, 18 de março de 2011

Conjuve define prioridades para 2011

Conselho Nacional de Juventude define prioridades para 2011

O Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) reune-se nesta quinta e sexta-feira (17 e 18) para debater um documento com considerações sobre as políticas de juventude de 2003 a 2010, além de definir as prioridades para 2011. O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, participa da reunião na manhã de sexta-feira. À tarde, os conselheiros discutirão a 2ª Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude, prevista para o segundo semestre deste ano.

A primeira Conferência, realizada em abril de 2008, mobilizou mais de 400 mil pessoas em todo o Brasil e resultou em um conjunto de prioridades e resoluções voltadas para as políticas de juventude em todas as esferas governamentais. A segunda Conferência visa garantir o caráter participativo dos jovens na agenda pública, além de avaliar os avanços obtidos e os desafios que vão integrar o próximo encontro. A organização da Conferência está a cargo da Secretaria Nacional de Juventude, vinculada à Secretaria-Geral, com a parceria de diversos ministérios.

Conjuve

Criado em 2005, o Conjuve é composto por 60 membros, sendo 20 do governo federal e 40 da sociedade civil. A representação do poder público contempla, além da Secretaria Nacional de Juventude, todos os ministérios que possuem programas voltados para a juventude, a Frente Parlamentar de Políticas para a Juventude da Câmara dos Deputados, o Fórum Nacional de Gestores Estaduais de Juventude e representantes das associações de prefeitos. Já a parcela da sociedade civil, que é maioria no colegiado, reflete a grande diversidade do segmento, contemplando os movimentos juvenis, organizações não-governamentais, especialistas e personalidades com reconhecido trabalho nessa área.

Do Portal Vermelho

Leia também: Pauta intensa marca primeira reunião do Conjuve em 2011

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Blitz da UEE e UCMG ocupa Assembleia Legislativa

O presidente da UCMG, Péricles Francisco, o diretor de combate ao racismo da UNE, Clédisson Geraldo dos Santos Junior e a presidente da UEE-MG, Luiza Adelaide Lafetá

A Comissão de Educação da Assembleia Legislativa de Minas Gerais foi ocupada, na manhã desta quarta-feira (16/3/11), por um grupo de estudantes que, a pedido do deputado Carlin Moura (PCdoB), apresentou sua pauta de reivindicações. A mobilização faz parte da Jornada de Lutas União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais – UEE e da União Colegial de Minas Gerais - UCMG em 2011. Os representantes da classe estudantil pediram o apoio dos deputados para uma série de medidas governamentais, entre elas a criação de um Fundo Social do Minério para financiar a educação e o desenvolvimento social.

Para os estudantes, essa reivindicação é justa, na medida em que o Estado é o maior produtor nacional de minério, sendo responsável por nada menos que 70% da produção mundial de minério de ferro. Eles compararam os royalties do petróleo com a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), dizendo que, enquanto os Estados produtores de petróleo recebem 10% do faturamento bruto sobre a extração, Minas Gerais fica com 2% do faturamento líquido sobre a exploração mineral. “Só em royalties sobre o petróleo, a cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, fatura mais que o orçamento total de Contagem, sendo que ambos os municípios têm aproximadamente o mesmo número de habitantes”, afirmou a presidente da UEE, Luiza Lafetá.

De acordo com Luiza, a Blitz na ALMG foi o lançamento da Campanha pelo Fundo Social do Minério. Ela avalia positivamente a campanha, pois o mote tem sido recebido bem por todos deputados, seja eles de oposição ou do governo. “O próximo passo agora é fazer uma audiência conjunta entre a Comissão de Participação Popular e Comissão de Educação, para apresentar a comunidade a Campanha e fazer com que a ALMG assuma essa luta”, conclui.

A Blitz pecorreu todos os corredores da ALMG colhendo apoio dos deputados cerca de 46 deputados dialogaram com a entidade e garantiram total defesa da bandeira. O proximo passo será a passeata de rua do dia 23 de março q culminará também na porta da ALMG. A jornada se junta com as diversas ações em defesa da educação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).

Luiza Lafetá integra o Movimento Transformar o Sonho em Realidade em Minas Gerais.

Da página da UJS

Foto: Alair Vieira (ALMG)

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quinta-feira, 17 de março de 2011

A construção do Homem no jovem Marx (parte 6)


Por Augusto Buonicore

Numa palavra: não podem abolir a filosofia sem realizá-la... o “partido teórico” tem na filosofia o seu ponto de partida, o seu complemento ideológico... Marx, portanto, apresentou um novo caminho que passava necessariamente pela unidade entre a teoria e a prática. Indubitavelmente, escreveu, a arma da crítica não podia substituir a crítica das armas, até porque potência material só pode ser abatida por potência material, ainda que também a teoria possa se transformar em potência material na medida em que se apodere das massas.

Marx descobre o proletariado revolucionário

A França em 1843 era a capital da revolução europeia. Por isso ali se agitavam as principais correntes do pensamento moderno. Entre elas desenvolviam-se as jovens correntes comunistas, com as quais Marx tomaria contato. Multiplicavam-se também organizações de operários revolucionários, em geral clandestinas, sendo uma das mais importantes a Liga dos Justos. É através dela que o jovem Marx entraria em contato com a jovem classe operária europeia.

Foi nesse ambiente que ele escreveu o seu artigo-ensaio Introdução à Crítica da Filosofia do Direito. Esse texto representaria um marco importante no processo de transição do jovem Marx para o Marx maduro das obras clássicas, pois é através dele que, pela primeira vez, aparece a figura do proletário com um papel definido no processo de emancipação humana. Na Introdução Marx buscou, também, estabelecer a justa relação entre a filosofia radical (a arma da crítica) e a práxis revolucionária (a crítica das armas).

Antes de mais nada, ele buscou definir o rumo geral do movimento de oposição ao Estado prussiano. Para isso procurou dar respostas a questões teórico-políticas tais como: Quais as condições para a transformação social? Quais os instrumentos dessa transformação?

É dessa maneira que Marx vê-se obrigado a submeter a uma dura crítica as duas principais correntes do pensamento político da Alemanha, crítica que ajudaria a amadurecer suas próprias ideias. Escreveu ele que o “partido prático” tem razão em exigir a negação da filosofia. O seu erro não estaria nessa exigência, mas em agarrar-se a uma exigência que não pode ser seriamente realizada. Numa palavra: não podem abolir a filosofia sem realizá-la. Por outro lado, o “partido teórico”, cujo ponto de partida era a filosofia, só viu no combate atual o combate crítico da filosofia contra o mundo alemão e não se acautelou contra o fato de que a própria filosofia fazia parte desse mundo, era o seu complemento ideológico. Ou seja: essa vertente acreditava poder realizar a filosofia sem a abolir.

Marx, portanto, acabou por apresentar um novo caminho para a oposição alemã, que passava necessariamente pela unidade entre a teoria e a prática. Indubitavelmente, escreveu, a arma da crítica não podia substituir a crítica das armas, até porque potência material só pode ser abatida por potência material, ainda que também a teoria possa se transformar em potência material na medida em que se apodere das massas.

Mas de que maneira pode a filosofia apoderar-se das massas e se tornar uma força realmente transformadora? A teoria, pensa Marx, é capaz de apoderar-se das massas desde que se torne radical, e ser radical é tomar as coisas pela raiz. E, para o Homem, a raiz é o próprio Homem. A teoria jamais se realiza num povo senão na medida em que é a realização de suas necessidades.

Outro aspecto que Marx levantava era o de que a revolução não era apenas um problema subjetivo, de realização pura e simples da filosofia, pois não basta que o pensamento tenda a se realizar, é também preciso que a realidade tenda a tornar-se pensamento (...) Uma revolução radical só pode ser uma revolução das necessidades radicais. A revolução é um problema que tem dois aspectos: um subjetivo, que é a revolucionarização da teoria, e outro objetivo, as condições históricas. Existiria uma relação dialética entre ambas e a mediação seria feita pela prática revolucionária.

A Alemanha, para Marx, não necessitava de uma revolução unicamente política e, portanto, parcial; não necessitava de outra revolução que deixasse de pé os pilares do edifício. A Alemanha precisava de um outro tipo de revolução, mais radical, que representasse verdadeiramente a emancipação humana, precisava de uma revolução social.

Mas onde residiria essa possibilidade, a possibilidade da revolução social alemã? O próprio Marx nos forneceu a resposta a essa questão. A possibilidade residiria na formação de uma classe com cadeias radicais, de uma classe na sociedade civil, de um grupo social que seja a dissolução de todos os grupos, que possua o caráter de universalidade pela leviandade de seus sofrimentos. Nas palavras de Marx, uma classe que não reivindicasse um direito particular, dado que não seria fruto de qualquer injustiça particular, mas da injustiça em si. Uma classe que não possa orgulhar-se do título histórico, mas apenas de um título humano. Uma esfera social, enfim, que não possa emancipar-se sem emancipar, por esse fato, todas as outras esferas da sociedade; que não possa reconquistar a si mesmo sem uma reconquista total do Homem. A dissolução da sociedade burguesa só poderia se realizar através de uma classe: o proletariado.

A filosofia encontrava assim no proletariado suas armas materiais e o proletariado encontrava na filosofia suas armas intelectuais. A cabeça dessa emancipação (humana) é a filosofia e o seu coração é o proletariado. O proletariado não pode abolir-se sem realizar a filosofia. E a filosofia não poderia se realizar sem a ação consciente do proletariado.

Foi assim que, entre os anos de 1843 e 1844, Marx fez uma de suas principais descobertas: a missão histórica do proletariado. Graças à sua posição objetiva na vida, esse seria o único grupo de homens capaz de transformar radicalmente a sociedade, abolindo a propriedade privada e construindo um novo mundo. Isso, porém, só seria possível quando esse agrupamento social estivesse instrumentalizado por uma filosofia crítica radical. A auto-libertação do proletariado passou a ser para Marx condição essencial para a libertação da própria humanidade, a emancipação universal, o encontro do Homem consigo mesmo: o fim da alienação.

Asseveram alguns que o proletariado da Introdução não seria ainda o proletariado da grande indústria, aquele do qual se extrairia a mais-valida. O proletariado ali mencionado corresponderia apenas à noção de trabalhadores desprovidos dos meios de produção, condenados objetivamente à degradação e à fome. Ou seja: nessa definição primitiva, o proletariado era definido não pela sua posição num sistema de produção e reprodução determinado (capitalista), mas principalmente pela sua miséria. Mesmo admitindo essa ressalva, é forçoso reconhecer que ela não invalida as afirmações anteriores, que colocam a Introdução como uma obra de ruptura.

Afinal, não poderíamos mesmo esperar que a passagem do jovem Marx ao Marx maduro se desse de repente, como Minerva nascendo da cabeça de Zeus, já de armadura e lança. A formação teórica é também um processo, marcado por saltos e acúmulos. E podemos afirmar que, sem sombra de dúvida, a Introdução representou um desses saltos, como outros que viriam.

A introdução do proletariado nas considerações de Marx criou profundas contradições em seu pensamento, abrindo nele lacunas que deveriam ser preenchidas. Era um Marx, decerto, atormentado e dividido entre aquele que aderia, de corpo e alma, ao movimento operário revolucionário em ascensão – movimento do qual viria a se constituir em um dos mais importantes teóricos – e o outro ainda preso, em muitos aspectos, a uma concepção não-proletária de mundo, o hegelianismo de esquerda. Essa contradição precisava ser resolvida, como de fato o foi.

(Continua na parte 7)


Leia as outras partes deste ensaio:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

*Augusto Buonicore, historiador e mestre em Ciência Política pela Unicamp, é secretário-geral da Fundação Maurício Grabois e membro dos conselhos editoriais das revistas Princípios e Crítica Marxista. Este ensaio – cuja versão atual foi publicada originalmente em cinco partes na revista Juventude.br (números 1 a 5) – foi escrito há mais uma década e muitas das opiniões nele contidas não correspondem mais integralmente às posições do autor. A motivação principal de sua publicação é oferecer uma visão panorâmica da formação intelectual inicial de Marx, algo de grande utilidade especialmente para as jovens gerações de comunistas, que conhecem pouco a vida e a obra do fundador do socialismo científico. Ensaio publicado na página da Fundação Maurício Grabois.

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segunda-feira, 14 de março de 2011

A construção do Homem no jovem Marx (parte 5)


Por Augusto Buonicore

Marx analisou cada um dos direitos fundamentais presentes na constituição francesa – os direitos à liberdade, à igualdade e à fraternidade – procurando responder no que consistiriam esses direitos.

Desvendando os direitos humanos... da burguesia

Em outubro de 1843, após o fechamento da Gazeta Renana, Marx transferiu-se para Paris, considerada o coração da revolução europeia. Ali, juntamente com Arnold Ruge, pôs em prática seus planos para a publicação de uma revista teórica e política que seria denominada Anais Franco-Alemães. No início de 1844 saiu o primeiro número.

A revista tinha por objetivo a criação de uma imprensa livre – livre para dispor de si própria como muito bem apetecer, vivendo segundo suas próprias leis e fazendo a união real do espírito alemão com o espírito francês, encontro este com significado profundamente humanista. Ou seja, era uma obra que pretendia unir o espírito prático/revolucionário francês à filosofia clássica alemã. Unir o cérebro e o coração da revolução européia da época.

Nos Anais, que não sobreviveram ao primeiro número, Marx publicou dois artigos, A Questão Judaica e a Introdução à Crítica da Filosofia do Direito, através dos quais deu os primeiros passos que o libertariam do democratismo revolucionário pequeno-burguês e o conduziriam pela senda do comunismo.

O primeiro artigo foi uma crítica à obra A Questão Judaica, escrita por seu antigo amigo Bruno Bauer. Toda a discussão sobre o problema judeu, nesse período, centrava-se na atitude que os democratas deveriam tomar em relação à luta dos judeus pelos seus direitos políticos, visto que desde 1816 estavam proibidos de exercê-los na Alemanha. Todos, de uma forma ou de outra, apoiavam a aspiração dos judeus alemães, que se constituíam em importante ponto de apoio na luta geral da oposição contra a autocracia e pela separação entre Igreja e Estado.

Bauer, com sua obra, buscou contribuir com esse debate, mas sua postura aparentemente radical acabou por desviar a atenção do sentido correto da luta. Para ele, enquanto o Estado permanecer cristão, não pode atribuir direitos iguais aos judeus que professam uma religião hostil ao cristianismo. Portanto, a emancipação política do judeu pressupõe a supressão do Estado cristão. Mas para obter o seu pleno direito para lutar por essa supressão, os judeus devem renegar sua religião. O ateísmo seria assim a condição da emancipação política.

Marx acreditava que essa afirmação era equivocada. O Homem, para Marx, se emancipa politicamente da religião ao bani-la do direito público para o direito privado. “A religião já não é o espírito de sociedade burguesa (...), mas deslocando a religião em relação ao Estado para transferi-la à sociedade burguesa (...) constitui (...) a consagração da emancipação política a qual (...) não suprime, nem tem por objetivo suprimir a religiosidade real do Homem”, como pensava Bauer.

Por isso Marx não dizia, como Bauer, “não podeis emancipar-vos politicamente se não vos emancipar radicalmente do judaísmo”. Ao contrário, afirmava: “podereis emancipar-vos politicamente sem vos desvincular radicalmente e absolutamente do judaísmo, porque a emancipação política não implica em emancipação humana. Quando vós judeus quereis a emancipação política sem vos emancipar humanamente, a meia solução, a contradição não reside em vós, mas na essência e na categoria de emancipação política”.

Para Bauer os direitos não eram ideias inatas do Homem, fórmulas a priori, mas representavam uma conquista e só poderiam possuí-los aqueles que soubessem adquiri-los, merecê-los. Os judeus, enquanto permanecessem judeus, teriam sua essência humana colocada em segundo plano; o Homem então teria que sacrificar o privilégio da fé se quisesse obter os direitos gerais do Homem.

Essa afirmação para Marx encerrava uma contradição, já que o privilégio da fé era expressamente reconhecido, seja como direito humano, seja como conseqüência de um direito humano: o da liberdade. A religião, afirmava ele, longe de se constituir incompatível com o conceito dos direitos humanos, incluía-se expressamente entre eles. Afinal, os direitos humanos proclamam o direito religioso.

Marx passa, então, a analisar o problema dos direitos humanos em geral, em especial como eles se colocavam na Declaração dos direitos dos homens e dos cidadãos, de 1793, mostrando as limitações desses direitos estatuídos que, em última instância, se reduziam a um único direito: o direito à propriedade.

Marx buscava fazer uma análise crítica do que representavam os direitos do Homem na sociedade capitalista, bem como compreender os fundamentos do discurso liberal-burguês. Os direitos humanos, para ele, nada mais eram que os direitos dos membros da sociedade burguesa, do homem egoísta, do homem separado do Homem e da comunidade. O individualismo é a base da concepção de mundo da burguesia. Marx analisou cada um daqueles direitos fundamentais presentes na constituição francesa – os direitos à liberdade, à igualdade e à fraternidade – procurando responder no que consistiriam esses direitos.

A Declaração dos Direitos do Homem afirmava: a liberdade é o poder do próprio homem de fazer tudo aquilo que não entre em conflito com os direitos de outros, ou, simplesmente, a liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não prejudique outrem. É dessa forma que Marx conclui que o conceito burguês de liberdade visava em última instância estabelecer os limites da própria liberdade. Tratava-se da liberdade de um homem encarado como mônada – isolado e dobrado sobre si mesmo. Escreveu Marx: os direitos do Homem não se baseiam na união do homem com o homem, mas pelo contrário na separação do homem em relação a seu semelhante. A liberdade é o direito do indivíduo delimitado, limitado a si mesmo. Para ele a aplicação desse direito à liberdade se traduzia, na prática, no direito humano à propriedade privada.

O direito humano à propriedade privada era o direito assegurado a todo cidadão de gozar e dispor de seus bens, rendas, dos frutos de seu trabalho e de sua indústria como melhor lhe conviesse. Portanto, esse era o direito de desfrutar de seu patrimônio e de dele usufruir arbitrariamente, sem atender aos demais homens, independente da sociedade. Esse constitui o fundamento da sociedade burguesa, sociedade que faz com que todo homem encontre em outro homem não a realização de sua liberdade, mas, pelo contrário, uma ameaça a esta e uma limitação desta.

Restava ainda examinar dois outros direitos humanos: o da igualdade e o da segurança. O direito humano à igualdade era pontificado em todas as constituições liberais. A própria constituição de 1785 afirmava que a igualdade consistia na aplicação da mesma lei para todos, seja quando protege seja quando castiga. Mas, nos marcos de uma sociedade marcada pela existência de profundas diferenciações, econômicas e sociais, qualquer declaração que propugnasse uma igualdade jurídica em geral, esquecendo-se de colocar igualmente o problema da abolição das desigualdades sociais reais, não passaria de uma meia-medida. Ou seja: era necessário estabelecer uma distinção entre liberdade formal e liberdade real.

Por fim, o direito à segurança. A constituição de 1795 afirmava: a segurança consiste na proteção conferida pela sociedade a cada um de seus membros para a conservação de sua pessoa, de seus direitos e de suas propriedades. Este, portanto, na sociedade moderna (capitalista), tornava-se o direito supremo, o direito de polícia, segundo o qual a sociedade somente existia para garantir a cada um de seus membros a conservação de sua pessoa, de seus direitos e de suas propriedades. O conceito de segurança não faz com que a sociedade burguesa se sobreponha a seu egoísmo. A segurança é, pelo contrário, a condição garantidora deste.

Nenhum dos chamados direitos humanos, para Marx, ultrapassava o egoísmo do homem, do homem enquanto membro da sociedade burguesa, isto é, do indivíduo voltado para si mesmo, para seu interesse particular em sua arbitrariedade privada e desassociada da comunidade. Nessa concepção egoísta, o único nexo que mantém os homens em coesão é a necessidade natural de conservação de suas propriedades e de sua individualidade. Por conseguinte, o homem que não se libertou da religião obteve, sim, liberdade religiosa. O homem que não se libertou da propriedade obteve a liberdade da propriedade, assim como o que não se libertou do egoísmo da indústria obteve a liberdade industrial.

(Continua na parte 6)

Leia as outras partes deste ensaio:

*Augusto Buonicore, historiador e mestre em Ciência Política pela Unicamp, é secretário-geral da Fundação Maurício Grabois e membro dos conselhos editoriais das revistas Princípios e Crítica Marxista. Este ensaio – cuja versão atual foi publicada originalmente em cinco partes na revista Juventude.br (números 1 a 5) – foi escrito há mais uma década e muitas das opiniões nele contidas não correspondem mais integralmente às posições do autor. A motivação principal de sua publicação é oferecer uma visão panorâmica da formação intelectual inicial de Marx, algo de grande utilidade especialmente para as jovens gerações de comunistas, que conhecem pouco a vida e a obra do fundador do socialismo científico. Ensaio publicado na página da Fundação Maurício Grabois.

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quinta-feira, 10 de março de 2011

Dica para a tarde de sexta na praça



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Coletivo Jovem da CTB/RS planeja Encontro Estadual

Lideranças da juventude trabalhadora ligadas a educação, cultura, sapateiros, comerciários e trabalhadores rurais, se reuniram no dia 25 de fevereiro na sede da FECOSUL em Porto Alegre/RS para discutir as ações da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) no Rio Grande do Sul, na área da juventude para o ano de 2011. A reunião do Coletivo da Juventude Trabalhadora da CTB gaúcha teve a presença do dirigente estadual da CTB, Henrique, e dos dirigentes nacionais Vicente Selistre e Vitor Espinoza, presidente do Sindicomerciários de Taquari.

O Coletivo de Juventude Trabalhadora da CTB/RS aceitou o desafio estratégico que está colocado para a CTB no próximo período: atrair a juventude gaúcha para o movimento sindical. Para isso, faz-se necessária a tarefa de organizar um expressivo II Encontro Estadual da Juventude Trabalhadora da CTB, que possa definir as principais bandeiras da juventude trabalhadora gaúcha e definir um programa unificado de luta da juventude da CTB no estado.

Trabalho, educação, cultura e lazer são direitos da juventude

Tal encontro, que deve ser propositivo para o II Encontro Nacional da Juventude Trabalhadora da CTB e para a II Conferência Nacional de Juventude, precisará discutir e propor políticas que possam garantir os direitos da juventude trabalhadora do campo e da cidade. Trabalho, educação, cultura e lazer são as principais preocupações dos jovens hoje, segundo institutos como o IBGE, o IBASE e o IPEA. Conciliar trabalho e educação com acesso a produção e consumo do lazer e da cultura é uma dificuldade que se apresenta a juventude brasileira.

Como trabalhar e estudar ao mesmo tempo? Para o trabalhador estudante do campo, a dificuldade de responder a essa pergunta está na insuficiente oferta de educação no meio rural, bem como de crédito, assistência técnica e demais políticas de incentivo a permanência do jovem no campo. Tal carência de políticas acaba criando um cenário que dificulta a permanência do jovem no meio rural e a continuidade da agricultura familiar. Intensifica-se, com isso, a urbanização desordenada dos grandes centros.

Os jovens do meio urbano também encontram desafios. Conseguir um emprego acaba sendo o objetivo maior, mas deixar os estudos de lado é a senha para não conseguir melhores remunerações futuras. As longas jornadas de trabalho muitas vezes desestimulam o jovem a continuar estudando, produzindo altos níveis de evasão escolar desde o nível fundamental até a pós-graduação, mesmo que os últimos anos tenham sido marcados pelo aumento de vagas nos três níveis, em especial no nível superior. Tanto para os jovens que conseguem aliar trabalho e estudo, quanto para os que só estudam ou só trabalham, o acesso a cultura e lazer é dificultado, seja por falta de tempo, seja por falta de dinheiro.

Por tudo isso, é preciso formular um programa que unifique os trabalhadores do campo e da cidade, da agricultura, indústria, comércio e serviços, em torno das especificidades do que é ser jovem hoje. O trabalhador e estudante precisa de políticas de garantia da conciliação dessas duas atividades, coibindo os abusos patronais, como o trabalho aos domingos, ampliando a assistência para a mãe trabalhadora, ampliando políticas de estímulo a permanência do jovem no campo.

Vale-cultura: uma conquista que deve ser garantida

Como diz a canção dos Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer bebida diversão e arte”. Graças a luta dos trabalhadores e trabalhadoras, obteve-se o vale-cultura, que é um vale de R$50 para trabalhadores com rendimento de até cinco salários mínimos, que poderá ser gasto em cinemas, teatros, shows, eventos esportivos, livrarias, etc. No entanto, para implementar a medida, os empresários precisam aderir ao benefício. É hora de colocar como pauta de negociação nas convenções coletivas a adesão ao vale-cultura tanto no serviço público como no privado.

Não são poucas as demandas da juventude trabalhadora. A conquista de seus direitos contribui diretamente para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul e do Brasil. Intensificar a mobilização e as lutas é o único caminho para construir um projeto de desenvolvimento que valorize os jovens trabalhadores, que na maioria das vezes estudam, e que não pode abrir mão de acessar e produzir cultura. O desafio do Coletivo da Juventude trabalhadora da CTB/RS está colocado. É hora de pisar no acelerador e fazer um 2011 cheio de lutas e realizações.


Do blog Igor de Fato

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