sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Há 42 anos, Jô Moraes era presa em Ibiúna

Momento da prisão a ficha no DOPS e a tese da AP

A saída com a delegação da Paraíba rumo à desconhecida São Paulo foi o primeiro obstáculo da aventura daqueles estudantes que nem sabiam ao certo onde era o seu destino. Todos eram delegados para o esperado 30º congresso da União Nacional dos Estudantes. O “ponto” marcado pelos companheiros foi a igreja da Pompéia, na capital paulista onde o grupo formado por mais uma companheira e João Roberto, estudante de Medicina e à época namorado de Maria do Socorro Moraes, entraram em uma Kombi.

No carro com outros estudantes o clima pesou ainda mais com a orientação para que todos ficassem de cabeças baixas e olhos fechados. O destino era incerto e o clima era dos mais tensos. Ao chegar ao sitio ,a estudante de serviço social se deparou com várias rodas e reuniões. Ali diversas opiniões se afloravam e as múltiplas siglas (ANL, POLOP, Ala Vermelha, PCB, PCdoB, PCBR, AP...) se dividiram em assembléias para preparar a disputa pelo comando da UNE. Era pouco, mas ali os estudantes respiraram um pouco de democracia.

No primeiro dia mais um obstáculo foi enfrentado pela delegação do nordeste. O frio daquele 11 de outubro castigou aqueles que nunca haviam enfrentado temperaturas tão baixas. Por volta das sete horas o latido dos cães anunciou a queda do congresso. Cerca de 250 militares fortemente armados orientaram uma fila indiana que levava aos caminhões e camburões do Dops. Os estudantes foram levados para o presídio Tiradentes e lá fotografados e “fichados” pelos agentes da segurança nacional.

Maria do Socorro recebe o numero 1172, que passa a ser sua identificação carcerária. Foram presos os maiores lideres estudantis da época. Luís Travassos (presidente eleito), Vladimir Palmeira, José Dirceu, Franklin Martins, José Luis Guedes e Jean Marc van der Weid. Um forte baque para o movimento.

Foi naquela manhã uma das ultimas vezes que Maria do Socorro via João Roberto. Depois de preso, o estudante retornou a Paraíba e foi encontrado boiando em um açude com fortes marcas de tortura pelo corpo.

Solidariedade materna

No Tiradentes, a estudante paraibana foi encaminhada junto com outras dezenas de presas políticas a uma ala próxima a cela das prostitutas. Os dias de prisão foram marcados por apreensão e descobertas. As mães dos presos políticos paulistas formaram o Comitê de Mães dos Presos e levavam, nos poucos momentos de visita, roupas, remédios e comida para todos os jovens de Ibiúna. Foi no Tiradentes que um grupo de estudantes do nordeste comeu pela primeira vez uma maçã, fruta incomum e cara no nordeste. Jô Moraes se recorda com emoção a novidade vivida pelo paladar na primeira vez que experimentou um queijo polenguinho, dado por uma destas mães paulistas.

Em um momento de protesto e suspiro de liberdade as presas políticas começaram a cantar o hino da independência. “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil” o cantar emocionado e politizado foi rapidamente respondido pelo grupo de prostitutas presas com outro canto “Ou deixai as putas livres, ou morrer pelo Brasil” a cena hilária ficou marcada na memória das presas políticas.

Depois da prisão em Ibiúna a ditadura sobreviveu mais dezessete anos. A estudante de serviço social virou destacada militante da Ação Popular e depois de algum tempo se incorporou as fileiras do Partido Comunista do Brasil. Militante clandestina reconstrói em Minas Gerais sua vida e sua militância política.

Depois de ver a queda da ditadura e o nascer da democracia, Jô Moraes prosseguiu em sua obstinada trajetória iniciada com os estudantes na igreja da Pompéia. Foi eleita vereadora, deputada estadual e é hoje a única mulher mineira no parlamento. Quarenta e dois anos depois, Maria do Socorro virou Jô Moraes mantendo os mesmos sonhos da noite de Ibiúna em 68. “Viver em um país pleno para todos, mais humano e fraterno, uma pátria socialista” diz Jô.

Pedro Leão para o Caderno Vermelho Minas


A Estrada vai além do que se vê!

Um comentário:

ThiagoFC disse...

Irônico é ver que os aliados dos fascistas que prenderam, torturaram e mataram tantos e tantas como a Jô, hoje se declaram bastiões da democracia e da liberdade, ao lado do nefasto José Serra.